Em visita ao México, Papa diz que não chegará carregado de soluções para os problemas

    Segundo país do mundo em população que se declara católica, atrás somente do Brasil, o México receberá a visita do Papa Francisco entre os próximos dias 12 e 17 de fevereiro. Em dois anos de pontificado, este será o 6º país latino-americano a receber o Sumo Pontífice, depois das terras brasileiras, do Paraguai, Equador, Bolívia e Cuba. A última visita de um papa ao México ocorreu em março de 2012, quando Bento XVI esteve no país.

     

    À agência Notimex, o Pontífice declarou que o mundo vive um clima de violência, tráfico, corrupção e guerra, no qual crianças são impedidas de frequentarem a escola, e isto ocorre também no México. Diante desse cenário, o Papa não espera ser um "Rei Mago”, carregado de soluções para os problemas, mas que irá ao país como um "peregrino”, a buscar o povo mexicano e a riqueza da fé que manifestam.


    O anúncio da chegada do Sumo Pontífice ao país foi realizado no último mês de outubro de 2015, pelo porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, com data confirmada no início de novembro pelo cardeal Norberto Rivera, arcebispo da Cidade do México. "Há uma notícia que todos já sabem: o Santo Padre vem nos visitar e vem no dia 12 de fevereiro, à tarde. Neste dia, vamos recebê-lo com muito carinho”, anunciou o cardeal, em missa na catedral metropolitana.


    Na programação, Francisco visitará a Cidade do México, Ecatepec, Tuxtla Gutiérrez, San Cristóbal de Las Casas, Morelia e Ciudad Juárez, e rezará diante da Virgem de Guadalupe. A Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe é o santuário nacional do México, localizado no Monte do Tepeyac. É considerado o principal templo de Igreja Católica no continente americano, um dos mais visitados do mundo, recebendo cerca de 20 milhões de fieis por ano. A Virgem de Guadalupe é a padroeira do México e chamada de "Imperatriz da América”, venerada pela Igreja Católica.


    "Repetindo o estilo nos países por onde já peregrinou, Francisco prestará homenagem à Mãe de Deus, Nossa Senhora de Guadalupe, primeira evangelizadora”, assinala a Arquidiocese da Cidade do México, em editorial de sua revista.


    Gabriela Juárez, membro da Secretaria Executiva do Observatório Eclesial do México disse à Adital que, após o anúncio da visita do Papa ao país, diferentes setores se pronunciaram por um encontro com o Pontífice, entre eles senadores e deputados, partidos políticos, além de diferentes instâncias do governo e empresários. Também se manifestaram grupos de vítimas, defensores (as) e ativistas sociais, o que demonstraria a aceitação de Francisco pela sociedade mexicana.


    No entanto, também existem posturas críticas ante a visita do Papa ao país, pontua Gabriela. Segundo ela, algumas confissões religiosas não católicas apelam para o Estado Laico e criticam o fato do governo destinar, "indevidamente”, impostos para receber um líder religioso, que não representa todos os mexicanos. Existiriam setores da sociedade civil que não aprovam a visita papal, "orquestrada pelo governo do presidente Enrique Peña Nieto, na busca por legitimar seu governo, com mais de 11 mil desaparecidos por causa do crime organizado; com as reformas constitucionais que violam os direitos humanos da população; com o crescimento dos feminicídios; a militarização do país e a constante repressão social por meio de uma violência sem limites, entre muitas outras situações por mencionar.”, denuncia.

     

    Gabriela lembra ainda que a postura do Papa Francisco, defendendo a justiça social, a igualdade entre os seres humanos e criticando os governos neoliberais, não deverá ser bem vista pelo governo mexicano. "Muito setores esperam, realmente, que o Papa Francisco questione o governo do atual presidente”, revela.


    Temas da visita


    Dentro da agenda da viagem apostólica, fala-se também de um encontro de Francisco com migrantes, uma das populações que mais sofrem com a violência conjugada entre as forças do Estado e do narcotráfico, nas estradas da América Central e México em direção à fronteira com os Estados Unidos. Durante sua visita aos EUA, em setembro do ano, o bispo de Roma apresentou-se como "filho de uma família de imigrantes” e discursou pedindo o acolhimento da terra de Barack Obama aos imigrantes latino-americanos. O Papa destacou também a grande contribuição que as populações latino-americanas oferecem à cultura e ao crescimento estadunidense.


    Gabriela Juárez defende que o Sumo Pontífice deveria reunir-se com defensores/as, organizações e albergues que apoiam os migrantes, e pessoas com autoridade moral, como o padre Alejandro Solalinde, As Patronas, a Migração Jesuítas, o Centro de Direitos Humanos Miguel Agustín Pro Juárez, o Coletivo de Apoio às Pessoas Migrantes, o Centro Tlachinollan, entre outros.


    Diante da postura de solidariedade do Santo Padre aos migrantes, representantes eclesiais da Igreja Católica mexicana que militam nos movimentos sociais de base junto aos migrantes querem aproveitar a oportunidade para que Francisco visite a própria fronteira. Outro tema que deverá entrar na pauta do papa será a violência contra população mexicana, especialmente em torno da crise institucional do Estado deflagrada desde o desaparecimento forçado dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em setembro de 2014, que fez emergir outros milhares de casos de mexicanas e mexicanos desaparecidos no país, com repercussão internacional.


    Para Gabriela, é fundamental que o Papa se reúna com os pais e mães dos 43 estudantes desaparecidos, grupo que se tornou símbolo de "fortaleza, luta, resistência e esperança” ante a situação de impunidade que oprimiu o país. Destaca também que seria importante um encontro com as mães das mulheres e crianças mortas na Cidade Juárez, Estado do México, Michoacán, Guanajuato e Sonora. "A cada dia os feminicídios aumentam, sete mulheres morrem por dia devido à violência, ser mulher em Cidade Juárez ainda é um perigo, mas agora em todo o país.”

     

    De acordo com Gabriela, outros temas necessários a serem discutidos com Francisco deveriam ser a violência e a pederastia eclesial no México. Para ela, a questão da violência não estaria sendo abordada pela hierarquia da Igreja. "Os bispos do México se caracterizam por estarem aliados ao poder, aos partidos políticos, aos empresários”. Ela diz que são poucos os pronunciamentos e os bispos que denunciam a violência, a pobreza, a desigualdade no país.


    No tocante à pederastia, Gabriela destaca que o Papa precisa dar razão às vítimas de abuso sexual por parte de Marcial Maciel e dos Legionários de Cristo, porque perdoa e dá indulgência plenária à congregação, sem antes fazer reparação de danos às vítimas. "A cumplicidade da Igreja e a impunidade ante este caso não podem ser negligenciadas nessa visita papal”.


    Como um "ar fresco” para Francisco, Gabriela avalia também como oportuno o encontro com outras igrejas, setores ecumênicos e organizações históricas, que têm trabalhado com uma opção preferencial pelos pobres e pelas teologias libertadoras no México e no continente latino-americano há mais de 50 anos. "Essas igrejas, incluindo os setores católicos progressistas, vozes ecumênicas e proféticas são aliados/as das propostas do Papa Francisco”.


    Marcela Belchior
    É jornalista da Adital. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estuda as relações culturais na América Latina.
    E-mail:
    marcela@adital.com.br

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